sábado, 8 de setembro de 2012

SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS ENTRE O ANTIGO E O NOVO TESTAMENTO, NA VISÃO CALVINISTA –


Por Ricardo Castro
Sicut scriptum est... 

Segundo Calvino, jamais o povo de Deus teve outra regra de santidade e de religião, porém há inúmeros “doutores” que, frequentemente, se perdem em longos debates sobre a diferença entre o Antigo e o Novo Testamento. E não é difícil encontrar cristãos que se enganam quanto a essa questão e, segundo Calvino, esse erro, de considerar que há duas regras de santidade e de religião – uma no Antigo Testamento e outra no Novo Testamento - é pestilente.

“A aliança feita com os pais antigos, em sua substância e em sua verdade é tão semelhante à nossa que se pode dizer que ambas são somente uma; só existe diferença na ordem da dispensação de cada uma delas.” – Calvino

Podemos identificar três artigos sobre a unidade existente entre o Antigo e o Novo Testamento:

  •  Primeiro, o Senhor não propôs aos judeus uma felicidade ou opulência terrena como uma meta à qual eles devessem aspirar, mas os adotou com vistas à esperança da imortalidade, e lhes revelou e testificou essa adoção, tanto por visões como em sua Lei e em seus Profetas.  
  • Segundo, a aliança pela qual eles foram ligados a Deus não se fundou nos méritos deles, mas unicamente na misericórdia de Deus. Todo o bem que o Senhor fez ou prometeu a seu povo proveio de sua pura bondade e clemência.
  • Terceiro, eles tinham e reconheciam Cristo como o seu Mediador, pelo qual estavam unidos a Deus e foram participantes das suas promessas.

Segundo Calvino, o apóstolo Paulo nos tira toda a dúvida quanto aos três artigos acima, quanto declara que “o Senhor há muito prometeu o evangelho de Jesus Cristo por meio dos seus profetas em suas Sagradas Escrituras, o qual agora ele deu a conhecer no tempo por ele determinado” – Rm 1.1-2. E também: que agora “se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas” – Rm 3.21. E, Calvino continua: “Certo é que o evangelho não mantém o coração dos homens com uma alegria da vida presente, mas o eleva à esperança da imortalidade; e não os liga aos prazeres terrenos, mas, demonstrando a esperança que lhes está preparada no céu, transporta-os às alturas”. Nada pois nos impede de possuirmos abundância de todo bem e certeza da salvação, desde que tenhamos o Senhor como o nosso Deus.

“Ora, se a doutrina do evangelho é espiritual e nos dá acesso à vida incorruptível, não pensemos que aqueles aos quais o evangelho foi prometido e pregado se divertem como animais, deixando-se dominar por suas volúpias carnais, sem se preocuparem com suas almas.” – Calvino

O apóstolo Paulo demonstra claramente, em Rm 1.1-2 e 3.21-26, que o Antigo Testamento tinha em vista principalmente a vida futura, uma vez que afirma que as promessas do evangelho estão nele incluídas. Assim, por igual razão, segue-se que ele, o Antigo Testamento, se baseia na misericórdia gratuita de Deus e tem sua firmeza em Cristo. Porque a pregação do evangelho não proclama outra coisa senão que os pobres pecadores são justificados pela clemência paternal de Deus, sem terem eles mérito algum. E a soma total disso tudo está contida em Jesus Cristo. A aliança do evangelho foi feita aos judeus, aliança cujo único fundamento é Cristo. Quem pois ousará pô-los, os judeus, fora da esperança da salvação gratuita?!

Se Deus, ao manifestar seu Filho, cumpriu a sua antiga promessa, não se pode dizer que a finalidade do Antigo Testamento não estava em Cristo e na vida eterna. Assim, as mesmas promessas da vida eterna que hoje nos é apresentada, não somente foram comunicadas aos judeus, mas também foram seladas e confirmadas por intermédio de sacramentos verdadeiramente espirituais que lhes foram ensinados e demandados.

Abraão, Isaque e Jacó, e muitos outros pais do Antigo Testamento, morreram na fé, sem ter obtido as promessas, mas vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra – HB 11.9-16. Mas, eles esperavam uma pátria melhor, a saber, a pátria celestial. Podemos ver essa mesma esperança declarada por Isaías – Is 51.6. Assim, os pais do Antigo Testamento sabiam muito bem que, fosse qual fosse o infortúnio que os crentes tivessem que sofrer neste mundo, seu fim seria vida e salvação. Por outro lado, sabiam que a felicidade dos ímpios é um caminho belo e aprazível que leva à desgraça. Temos também o vibrante testemunho de Jó, que se destaca entre outros testemunhos que encontramos no Antigo Testamento: “Eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus (...) de saudade me desfalece o coração dentro em mim”.

O Antigo Testamento, a aliança que Deus fez com o povo de Israel, não se limitava a coisas terrenas, mas também abrangia certas promessas da vida espiritual e eterna, a esperança da qual devia estar impressa no coração de todos os que se aliavam a esse Testamento. O apóstolo Paulo lembrou aos judeus do seu tempo que eles eram herdeiros da graça evangélica, visto que eram sucessores dos profetas, estando incluídos na aliança que Deus tinha feito nos tempos antigos com Israel – Rm 3.11-26. E para que não fosse testemunho só de palavras, o Senhor também o comprovou de fato. Porque na mesma hora em que ressuscitou, fez muitos santos participantes da sua ressurreição, os quais foram vistos em Jerusalém – Mt 27.50-53. Com isso nos é dada uma garantia de que tudo o que o Senhor tinha feito e sofrido para adquirir salvação para o gênero humano pertencia tanto aos crentes do Antigo Testamento quanto aos crentes do Novo Testamento.

Segundo Calvino, há sim diferenças entre o Antigo e o Novo Testamento:

  • A primeira diferença é que, conquanto Deus sempre tenha desejado que o seu povo elevasse o seu pensamento à herança celestial, e pusesse nisso o seu coração, todavia, para melhor manter a esperança das coisas invisíveis, ele o levava a contemplá-la sob Suas bênçãos terrenas, quase sempre lhe dando algo que lhe agradava. Mas agora, tendo revelado claramente a graça da vida futura pelo evangelho, ele dirige a nossa mente de maneira direta, levando-nos a meditar nela, sem nos envolvermos com coisas inferiores, com fazia com os israelitas.
  • A segunda diferença é que, no tempo em que a verdade ainda estava ausente, o Antigo Testamento a representava por meio de imagens, e mostrava sombra em lugar do corpo. O Novo Testamento contém a verdade presente, e substância real e concreta. O Antigo Testamento foi a doutrina que Deus deu ao povo judeu, doutrina envolta em observância de cerimônias que não tinham nem eficácia nem solidez. Daí o seu caráter temporal, pois estava como em suspense, até que se firmasse em seu cumprimento e fosse confirmado em sua substância. Mas então ele foi feito novo e eterno, quando foi confirmado e estabelecido no sangue de Cristo. Certo é que a presença de Jesus Cristo teve privilegiada ocasião de trazer ao mundo mais amplo entendimento dos mistérios celestiais, como nunca antes.
  • A terceira diferença é que, a Lei é descrita como doutrina literal, pregação que mata e condena, escrita em tábuas de pedras, mas, o Evangelho é descrito como doutrina espiritual, que vivifica, e gravada no coração – Jr 31.31-34 e 2Co 3.1-11. E, nos textos citado, devemos ter em mente esta particularidade em Paulo: quando ele e Jeremias estão de acordo, naquilo em ambos se opõem o Antigo Testamento ao Novo, eles não consideram na Lei nada senão o que é próprio dela. Eles só tratam das funções da Lei nas quais ela ordena o que justo e bom; proíbe toda maldade; promete recompensa aos que praticam a justiça; ameaça os pecadores com a vingança de Deus – sem que ela possa mudar ou corrigir a perversidade existente naturalmente em todos os homens. Para o apóstolo Paulo, o Antigo Testamento é literal, porque foi publicado sem a eficácia do Espírito; o Novo é espiritual, porque o Senhor o gravou no coração dos seus. O Antigo Testamento é mortal porque não pode fazer nada senão envolver em maldade todo o gênero humano. O Novo é instrumento de vida porque, livrando-nos da maldição, remete-nos à graça de Deus.
  • A quarta diferença é que, a Escritura dá ao Antigo Testamento o título de aliança de escravidão, porquanto ele gera temor e terror no coração dos homens; já o Novo é denominado aliança da liberdade, porque ele os confirma na segurança e na confiança – Rm 8.15; Hb12.18-21. Assim, a Lei não pode gerar em nós nada mais que escravidão; o que não se dá com o evangelho, que nos regenera para a liberdade. O Antigo Testamento foi dado para incutir pavor nas consciências, e o Novo, para que lhes fosse dada alegria e contentamento. O Antigo Testamento teve as consciências oprimidas e encerradas sob o jugo da servidão, ao passo que o Novo nos liberta e nos declara livres.
  • A quinta diferença é que, até o advento de Cristo, Deus separou um povo ao qual confiou a aliança da sua graça. O Senhor confiou a esse povo a sua aliança; manifestou a presença da sua Divindade no meio deles e o exaltou com todos os outros privilégios. Ao comunicar ao seu povo a sua Palavra, uniu-se a ele, para ser chamado e considerado seu Deus. Enquanto isso, o Senhor deixou que as outras nações caminhassem na vaidade e no erro, como se não tivesse nenhuma relação com ele, e não lhes deu o remédio com o qual podia socorrê-las. Esse remédio não é outro senão a pregação da sua Palavra. Mas, quando veio a plenitude dos tempos, ordenada para reparar todas as coisas; quando o Mediador entre Deus e os homens se manifestou e “derrubou a parede” que por longo tempo mantinha a misericórdia confinada num só povo, ele fez com que a paz fosse anunciada aos que estavam longe, com também aos que estavam perto, a fim de que, estando todos juntamente reconciliados com Deus, se unissem formando um corpo.

Calvino encerra suas considerações, sobre as diferenças e semelhanças entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento, tratando da vocação dos gentios: “Portanto, a vocação dos gentios é uma notável marca pela qual fica demonstrada a excelência e a superioridade do Novo Testamento em relação ao Antigo. Ela havia sido predita e testificada antigamente por muitas profecias, mas de maneira que o seu cumprimento era remetido à vinda do Messias”. E, finalmente, “pela vocação pública dos gentios, feita após a ascensão de Jesus Cristo, eles não somente foram elevados ao mesmo grau de honra dos judeus, mas, o que é mais importante, foram colocados no lugar deles, como seus substitutos”.

Sicut scriptum est...

Bibliografia utilizadas na construção deste artigo:
- As Institutas, volume 3 (João Calvino – Editora Cultura Cristã
(Há, no artigo acima, várias compilações da obra acima, não havendo indicação por aspas ou referências, a todas elas. Minha intenção é incitar o leitor a pesquisar nessa obra e, assim lê-la.)

Um comentário:

  1. Paz e Graça do Senhor Jesus meu irmão... Aprecio muito o seu trabalho nas postagens desses artigos tendo como base as Institutas e os comentários de Calvino... realmente Deus o iluminou de maneira grandiosa para que a exemplo do nosso Senhor Jesus, Paulo, Agostinho e outros expositores da Palavra de Deus a verdade chegasse fielmente a nós pregada...
    Espero que Deus desperte o interesse de muitos irmãos na fé para compreenderem sua vontade nas Escrituras e somente pelas Escrituras, pois não podemos conhecer nada de Deus sem que Ele revele a nós... e Ele já nos deixou Sua Palavra como prova disso! Eu, que nasci num lar cristão, na infância não fui ensinado na doutrina reformada, porém Deus teve misericórdia de mim e me levou a esse caminho onde encontrei a verdade bíblica e a certeza da vocação com qual Deus me chamou para ser conforme a imagem de Seu Filho! Continue o bom trabalho! Deus o abençoe grandemente!

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