segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A PESSOA DE CRISTO -

por Ricardo Castro
Sicut scriptum est...

A DOUTRINA DE CRISTO NA HISTÓRIA –

Há uma relação muito estreita entre a doutrina do homem e a de Cristo. A primeira (a antropologia) trata do homem, criado à imagem e semelhança de Deus e dotado de verdadeiro conhecimento, justiça e santidade, mas que, voluntariamente transgrediu a lei de Deus, despojando-se da sua verdadeira humanidade e, por consequência,  transformou-se em pecador. A doutrina do homem o mostra como uma criatura de Deus altamente privilegiada, trazendo ainda alguns traços da sua glória original, mas, todavia, uma criatura que perdeu os seus direitos de nascimento, sua verdadeira liberdade e sua justiça e santidade originais. Assim, a antropologia dirige a atenção não apenas, nem primeiramente, à condição do homem como criatura, mas, sim, à sua pecaminosidade. Salienta, pois, a distância ética que há entre Deus e o homem, distância resultante da queda deste último (do homem) e que, nem o homem nem os anjos (ou quaisquer outras criaturas) podem cobrir, e, como tal, é virtualmente um grito pelo socorro divino. A cristologia (a doutrina de Cristo) é em parte a resposta a esse grito. Ela, a doutrina de Cristo, nos mostra Deus vindo ao encontro do homem para afastar as barreiras entre Ele mesmo (Deus) e o homem, pela satisfação das condições da lei em Cristo, e para restabelecer o homem em sua bendita comunhão com Deus.

Jesus Cristo foi plenamente Deus e plenamente homem em uma só pessoa e assim o será para sempre. A divindade e a humanidade de Jesus unem-se na única pessoa de Cristo.

A HUMANIDADE DE CRISTO –

As Escrituras afirmam claramente que Jesus foi concebido no ventre de sua mãe, Maria, por obra miraculosa do Espírito Santo e sem um pai humano – Mt 1.18,20,25 e Lc 1.34-35. E não somente isso, pois as Escrituras também indicam claramente que Jesus possuía os elementos essenciais  da natureza humana, isto é, um corpo material e uma alma racional, Mt 26.26,28,38; Lc 23.46; 24.39; Jo 11.33; Hb 2.14. Há tambem passagens que mostram que Jesus estava sujeito às leis ordinárias do desenvolvimento humano, e aos sofrimentos e necessidades humanas, Lc 2.40,52; Hb 2.10,18; 5.8. Há declarações minuciosas de que ele passou pelas experiências normas da vida humana, Mt 4.2; 8.24; 9.36; Mc 3.5; Lc 22.44; Jo 4.6; 11.35; 12.27; 19.28,30; Hb5.7.

1 - O Nascimento Virginal

O nascimento virginal é importante, pelo menos em três áreas:

- Mostra que a salvação, em última análise, deve vir do Senhor. Exatamente como Deus havia prometido que “a semente” da mulher (Gn3.15) acabaria por destruir a serpente, Deus torna isso em realidade pelo seu poder, não por meros esforços humanos. O nascimento virginal de Cristo é um lembrete inequívoco de que a salvação jamais pode vir por meio do esforço humano, mas deve ser obra do próprio Deus – Gl4.4-5.

- O nascimento virginal possibilitou a união da plena divindade e da plena humanidade em uma só pessoa. Esse foi o meio empregado por Deus para enviar seu Filho (Jo3.16; Gl4.4) ao mundo como homem. Deus, em sua sabedoria, ordenou uma combinação de influência humana e divina no nascimento de Cristo, de modo que sua plena humanidade nos seria evidente pelo seu nascimento humano comum por meio de uma mulher, e sua plena divindade seria evidente por sua concepção no ventre de Maria pela obra poderosa do Espírito Santo.

- O nascimento virginal também torna possível a verdadeira humanidade de Cristo sem a herança do pecado. O fato de Jesus não ter tido um pai humano significa que a linha de descendência de Adão é parcialmente interrompida. Jesus não descendeu de Adão da maneira exata pela qual todos os outros seres humanos descendem de Adão. E isso nos ajuda a compreender (ainda que limitadamente) porque a culpa legal e a corrupção moral que pertencem a todos os outros seres humanos não pertencem a Cristo. Lc1.35 – Porque o Espírito realizou a concepção de Jesus no ventre de Maria, o menino devia ser chamado “santo”. Mas, tal conclusão não deve ser tomada como indicação de que a transmissão do pecado só se faz por meio do pai, pois as Escrituras jamais fazem essa afirmação. Jesus não era de todo descendente de Adão, e essa interrupção na linha de descendência foi o método empregado por Deus para fazer com que Jesus fosse plenamente humano e, mesmo assim, não partilhasse do pecado herdado de Adão. A obra do Espírito Santo em Maria deve ter evitado não só a transmissãodo pecado de José, mas também, de maneira miraculosa, a transmissão do pecado de Maria – Lc1.35.

Complementando o fato de que as Escrituras ensinam o nascimento virginal de Jesus, podemos ver que ele é doutrinamente importante, e para compreendermos de modo correto o ensino bíblico sobre a pessoa de Cristo, é essencial começar com a afirmação dessa doutrina.

2 – Fraquezas e Limitações Humanas

Jesus, antes da sua morte e ressurreição (e após a sua encarnação), possuía um corpo humano, exatamete como o nosso – Lc 2.7, 40, 52; 4.6; 19.28; 23.26, 46 e Mt 4.2. Após a sua ressurreição, Jesus apareceu aos discípulos em um corpo humano, físico, ainda que aperfeiçoado e já não sujeito à fraqueza, enfermidade ou morte – Lc 24.39, 42, 30; Jo 20.17,20,27; 21.9,13. Nesse mesmo corpo humano (ainda que ressurreto e tornado perfeito) Jesus também ascendeu ao ceu – Jo16.28; 17.11. A maneira pela qual Jesus ascendeu ao céu, demonstra a continuidade entre sua existência num corpo físico aqui sobre a terra e a sua existência contínua no céu nesse corpo. Lc 24.39, 50-51; At 1.9 – estes versículos, e os demais versículos citados acima, juntos, mostram que, no que diiz respeito ao corpo humano, Jesus era como nós em todos os aspectos antes da ressurreição, e após a ressurreição ainda era um corpo humano com “carne e ossos”, mas tornado perfeito, o tipo de corpo que teremos quando Cristo voltar e formos também ressuscitado. Jesus continua existindo nesse corpo humano no céu, conforme a ascenção tem o propósito de ensinar.

Jesus possuía uma mente humana. O fato de Jesus ter crescido em sabedoria (Lc 2.52) siginifica que ele passou por um processo de aprendizagem assim como acontece com todas as outras crianças – ele aprendeu a andar, a falar, a ler e a escrever, e a ser obediente a seus pais – Hb 5.8. Esse processo de aprendizagem fazia parte da genuína humanidade de Cristo.

Jesus possía emoções humanas – Jo 12.27, 13.21; Mt 26.38. Jesus experimentou toda uma sucessão de emoções humanas – Mt 8.10; Jo 11.35; Hb5.7. O livro de Hebreus nos relata que “...embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu - Hb 5. 8-9. Assim, ao que parece, à medida que Jesus crescia rumo à maturidade, como todas as outras crianças humanas, pôde ir assumindo mais e mais responsabilidades (perante a seus pais humanos e perante o Pai celestial). Mas, é importante ressaltar que Jesus não pecou no processo do aprendizado da obediência. A completa ausência de pecado na vida de Jesus é ainda mais notável pelas tentações severas que enfrentou, não só no deserto, mas durante toda a sua vida – não somente no processo de aprendizado da obediência na sua infância (Hb 5.8).

As pessoas próximas de Jesus consideravam-no apenas humano. Jesus levou uma vida humana tão normal, que as pessoas de Nazaré, que o conheciam melhor, ficaram surpresas com o fato de que ele conseguia ensinar com autoridade e realizar milagres – Mt 13.53-58; Jo 7.5; Mc 6.1-6.

Jesus era tão plenamente humano que mesmo os que viveram e trabalharam com ele por trinta anos, mesmo os irmãos que cresceram com ele, não percebiam que era um tanto superior a outros seres humanos “muito bons”. Ao que parece, não tinham idéia de fosse Deus vindo em carne.

3 – Impecabilidade

Jesus era plenamente humano, mas era diferente em um aspeco: ele era insento de pecado e jamais cometeu um pecado durante a sua vida na terra. Assim, atribuimos a Cristo não somente integridade natural, mas também moral, ou perfeição moral, isto é, impecabilidade. Significa que Cristo pode evitar o pecado (potuit non peccare), e que de fato evitou, mas também que lhe era impossível pecar (non potuit peccare), devido à ligação essencial entre as naturezas humana e divina.

Lc 1.35; 2.40; 4.13; Jo 8.46; Jo 8.29; 14.30; 15.10; At 2.27; 3.14; 4.30; 7.52; 13.35; 2Co 5.21; 3.18; 1Pe 1.19; 2.22.

O livro de Hebreus nos diz que Jesus foi tentado mas, ao mesmo tempo, insiste que ele não pecou – Hb 4.15; 7.26; 9.14.

O nome “Filho do homem”, do qual Jesus se apropriou, parece dar a entender que ele correspondeu ao perfeito ideal de humanidade.

Junto com a impecabilidade de Jesus, devemos notar de modo mais detalhado a natureza de suas tentações no deserto (Mt 4.1-11; Mc 1.12-13; Lc 4.1-13). A essência dessas tentações era uma tentiva de convencer Jesus a escapar da dura trilha de obediência e do sofrimento  que lhe fora designada como o Messias. Jesus “foi guiado pelo [...] Espírito, no deserto, durante quarenta dias, sendo tentado pelo diabo” (Lc4.1-12). Tanto no caso de Adão e Eva, como no caso de Jesus,  o que se exigia não era uma obediência a um princípio moral eterno arraigado no caráter de Deus, mas um teste de obediência pura a uma instrução específica de Deus. A Adão e Eva, Deus ordenou que não comessem da árvore do conhecimento do bem e do mal, e a questão era se obedeceriam simplesmente por Deus lhes ter falado. No caso de Jesus, “guiado pelo Espírito” por quarenta dias no deserto, ao que parece, ele compreendeu que era a vontade do Pai que que nada comesse durante aqueles dias e simplesmente permanecesse ali até que o Pai, pela direção do Espírito Santo, lhe dissesse que a tentação estava encerrada e que ele podia partir.

É claro que Jesus tinha o poder para transforma pedras em pães (Lc4.3), e, a situação se intensifica pelo fato de parecer que ele morreria se não se alimentasse logo. Mas, ele viera para obedecer perfeitamente a Deus, em nosso lugar, e deveria fazê-lo como homem. A tentação era empregar seu poder divino para “fraudar” o cumprimento das exigências, tornando a obediência um pouco mais fácil. Mas, Jesus, em contraste com Adão e Eva, recusou-se a comer o que parecia bom e necessário para si, optando por obedecer a ordem de seu Pai celestial.

A tentação de curvar-se e cultuar a Satanás por um momemto e depois receber autoridade sobre “todos os reinos do mundo” (Lc 4.5) era a tentação de receber o poder, não pelo caminho da obediência vitalícia a se Pai celestial, mas pela submissão ilícita ao Príncipe das Trevas. De novo, Jesus rejeitou o caminho aparentemente fácil e escolheu o caminho da obediência que levava à cruz.

A tentação de jogar-se do pináculo do templo (Lc 4.9-11) era a tentação de “forçar” Deus a realizar um milagre e resgatá-lo de maneira espetacular, atraindo assim grande séquito dentre o povo, sem prosseguir no duro caminho que tinha à frente, o caminho que incluía três anos ministrando às necessidades das pessoas, ensinando com autoridade e exemplificando a santidade absoluta de vida em meio a dura oposição. Mas, de novo, Jesus resistiu a esse “caminho fácil” para cumprimento de seus alvos como o Messias (de novo, uma rota que de fato não cumpriria,de maneira alguma aqueles alvos).

Nas tentações no deserto, e nas várias tentações que enfrentou durante os trinta e três anos de sua vida, Cristo obedeceu a Deus em nosso lugar e como nosso representante, obtendo dessa foram sucesso onde Adão falhou, e onde todos os homens falham – Rm 5.12-21.

Por mais difícil que nos seja compreender, as Escrituras afirmam que nas tentações Jesus tornou-se capaz de nos compreender e de nos ajudar em nossas tentações – Hb 2.18; Hb4.15-16.

Também precisamos afirmar com as Escrituras que “Deus não pode ser tentado pelo mal” (Tg 1.13). Mas aqui a questão torna-se difícil: se Jesus era plenamente Deus e também plenamente humano, então somos obrigados também a afirmar que (em algum sentido) Jesus “não pode ser tentado pelo mal”.

Considerações:

a. Se a natureza humana tivesse existindo por si só, independentemente de sua natureza divina, teria sido a mesma natureza humana que Deus deu a Adão e Eva. Estaria isenta de pecado, mas mesmo assim seria capaz de pecar. Por conseguinte, se a natureza humana de Jesus tivesse existido por si, haveria a possibilidade abstrata ou teórica de Jesus ter pecado, assim como a natureza humana de Adão e Eva era capaz de pecar.
b. Mas a natureza humana jamais existiu à parte da união com sua natureza divina. Desde o momento de sua concepção, ele existiu como verdadeiro Deus e também verdadeiro homem. Tanto a natureza humana como sua natuerza divina existiram unidas em uma pessoa.
c. Embora Jesus tivesse experimentado algumas coisas (tais como fome, sede ou fraqueza) só em sua natureza humana e não em sua natureza divina, um ato pecaminoso seria um ato moral que, aparentemente, teria envolvido toda a pessoa de Cristo. Assim, se tivesse pecado, isso teria envolvido sua natureza divina bem como a humana.
d. Mas se Jesus como pessoa tivesse pecado, implicando tanto a natureza humana com a divina no pecado, então o próprio Deus teria pecado e teria deixado de ser Deus. Mas é claro que isso é impossível por causa da santidade infinita da natureza de Deus.
e. Assim, se perguntarmos se de fato era possível Jesus pecar, parece que precisamo concluir que isso não era possível. A união de sua natureza humana e divina em uma pessoa o impedia de pecar.

Então, como as tentações de Jesus poderiam ser reais? Jesus enfrentou cada tentação do pecado, não por seu poder divino, mas só na força de sua natureza humana (embora não fosse “só”, porque Jesus, ao exercer o tipo de fé que os homens devem exercer, depende de Deus Pai e do Espírito Santo em todos os momentos).

A natureza divina não podia ser tentada pelo mal, mas sua natureza humana podia, e é claro que foi tentada. Como essas duas naturezas uniam-se em uma pessoa ao eferentar tentações? As Escrituras não nos explica.

4 – A necessidade de que Jeus fosse plenamente humano

1Jo 4.2-3 – João escreve contra o docetismo, que afirmava que Jesus não era homem.

Jesus tinha de ser plenamente humano para ser o Messias e obter a nossa salvação. Desde que o homem pecou, era necessário que o homem sofresse a penalidade. Além disso, o pagamento da pena envolvia sofrimento do corpo e alma, sofrimento somente cabível ao homem, Jo 12.27; At 3.18; Hb 2.14; 9.22. Era necessário que Cristo assumisse a natureza humana, não somente com todas as suas propriedades essenciais, mas também com todas as debilidades a que está sujeita, depois da Queda, e, assim, devia descer às profundezas da degradação em que o homem tinha caído, Hb 2.17, 18. Ao mesmo tempo, era preciso que fosse um homem sem pecado, pois um homem que fosse, ele próprio, pecador e que estivesse privado de sua própria vida, certamente não poderia fazer uma expiação por outros, Hb 7.26. Unicamente um Mediador verdadeiramente humano assim, que tivesse conhecimento experimental das misérias da humanidade e se mantivesse acima de todas as tentações, poderia identificar-se com todas as experiências, provações e tentações do homem, Hb 2.17,18; 4.15 - 5.2, e ser um perfeito exemplo humano para os seus seguidores, Mt 11.29; Mc 10.39; Jo13.13-15; Fp 2.5-8; Hb 12.2-4; 1Pe 2.21.

Seguem outras sete razões pelas quais Jesus tinha de ser plenamente humano.

a.   Para possibilitar uma obediênca representativa –
Jesus era nosso representante e obedeceu em nosso lugar naquilo que Adão falhou e desobedeceu. Vemos isso nos paralelos entre a tentação de Jesus, no deserto – Lc 4.1-13 – e a ocasião da prova de Adão e Eva no jardim do Éden (Gn 2.15 - 3.7). Rm 5.12-21 também nos mostra essa verdade. Por esse motivo as Escrituras chamam Cristo de “o último Adão” – 1Co 15.45 -  e Adão de “o primeiro homem”  e Cristo de “o segundo homem” - 1Co 15.47. Jesus tinha se ser homem para ser o nosso representante e obedecer em nosso lugar.
b.   Para ser um sacrifício substitutivo –
Se Jesus não tivesse sido homem, não poderia ter morrido em nosso lugar e pago a penalidade que nos cabia – Hb 2.16-17. Para isso  “convinha” que fosse como nós em todos os sentidos, de modo que pudesse ser a “propiciação” para nós, o sacrifício substitutivo aceitável em nosso lugar. A menos que Cristo fosse plenamente homem, ele não poderia ter morrido para pagar a pena dos pecados dos homens (assim, não sendo plenamente humano ele não poderia ter sido um sacrifício substituvivo por nós).
c.   Para ser o único mediador entre Deus e os homens –
Porque estávamos alienados de Deus por causa do pecado, necessitávamos de alguém que se colocasse entre Deuse nós e nos levasse de volta a ele. Precisávamos de um mediador que pudesse representar-nos diante de Deus e que pudesse representar Deus para nós. Só há uma pessoa que preencheu esse requisito: Cristo Jesus – 1Tm 2.5. Para cumprir essa função de mediador, Jesus tinha de ser plenamente homem e plenamente Deus.
d.   Para cumprir o propósito original do homem de dominar a criação –
Quando Jesus veio como homem, foi capaz de obedecer a Deus e, assim, teve o direito de dominar a criação como homem, cumprindo o propósito original de Deus ao colocar o homem sobe a terra – Hb 2.8-9; Mt 28.18; Ef 1.22. Jesus tinha de ser homem para cumprir o propósito original de Deus de que o homem dominasse sobe a sua criação.
e.   Para ser nosso exemplo e padrão na vida –
As Escriturs nos diz: “...aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou” 1Jo2.6. E também em outras passagens: 2Co 3.18; Rm 8.29; 1PE 2.21; Hb 12.2,3; Fp 3.10, 1Pe 3.17-18. Jesus tinha de tornar-se homem como nós para viver como nosso exemplo e padrão de vida.
f.    Para ser o padrão de nosso corpo redimido –
O novo corpo ressurreto que Cristo obteve, na sua ressurreição (1Co 15.42-44) é o padrão do que será nosso corpo quando formos ressuscitados dos mortos, porque Cristo é “as primícias” (1Co 15.23). Temos agora um corpo físico como o de Adão, mas teremos um como o de Cristo: “...assim como trouxemos a imagem do que é terreno, deveremos trazer também a imagem do celestial” 1Co 15.49. Jesus tinha de ser ressuscitado como homem para ser o “primogênito de entre os mortos” (Cl 1.18), o padrão para o corpo que teremos mais tarde.
g.   Para compadecer-se como sumo sacerdote –
As Escrituras nos diz que “naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados” Hb 2.18; 4.15-16. Se Jesus não tivesse existido na condição de homem, não teria sido capaz de conhecer por experiência o que sofremos em nossas tentações e lutas nesta vida. Mas, porque viveu como homem, ele é capaz de compadecer-se mais plenamente de nós em nossas experiências.

5 – Jesus será um homem para sempre

Jesus não abandonou a natureza terrena após sua morte e ressurreição, pois apareceu aos discípulos como homem após a ressurreição, até com as cicatrizes dos cravos nas mãos (Jo 20.25-27) – Ele possuía carne e ossos (Lc 24.39) e comia (Lc 24.41-42). Posteriormente, quando conversava com os discípulos, foi levado ao céu, ainda em seu corpo humano ressurreto, e dois anjos prometeram que ele voltaria do mesmo modo – At 1.11. E ainda, isso é o que nos mostra as Escrituras, em outras passagens: At 7.56; Ap 1.13-17. Jesus não se tornou temporariamente homem, mas sua natureza divina foi permanentemente unida à sua natureza divina, e ele vive para sempre não só como o Filho eterno de Deus, a segunda pessoa da Trindade, mas também como Jesus, o homem que nasceu de Maria, e como Cristo, o Messias e Salvador de seu povo. Jesus permanecerá para sempre plenamente Deus e plenamente homem, e ainda uma só pessoa.

A DIVINDADE DE CRISTO –

O ensino bíblico, completo, acerca de Jesus Cristo, exige que declaremos não só que ele era plenamente humano, mas também plenamente divino. Embora a palavra não ocorra de maneira explícita na Bíblia, a igreja tem empregado o termo encarnação para referir-se ao fato de que Jesus era Deus em carne humana. A encarnação foi o ato pelo qual Deus Filho assumiu a natureza huma. A comprovação bíblica da divindade de Cristo é bem ampla no Novo Testamento. Alguns, no entanto, demonstram certa inclinação para negar que o Antigo Testamento tenha predições de um Messias divino, mas essa negação é completamente insustentável em vista de passagens como Sl 2.6-12 (Hb 1.5); 45.6,7 (Hb 1.8,9); 110.1n (Hb 1.13); Is 9.6; Jr 23.6; Dn 7.13; Mq 5.2; Zc 13.7; Ml 3.1. Vários especialistas em história insistem vigorosamente no fato de que a doutrina de um Messias super-humano era coisa natural para o Judaísmo pré-cristão.

1 – Alegações bíblicas diretas –

a.     A palavra Deus (theos) atribuída a Cristo. Apesar de a palavra theos, “Deus”, ser em geral reservada no Novo Testamento para Deus Pai, há algumas passagens em que é também empregada em referência a Jesus Cristo. Em todos esses trechos, a palavra “Deus” é empregada como um sentido denso em referência àquele que é Criador do céu e da terra, o governador de tudo – Jo 1.1; 18; 20.28; Rm 9.5; Tt 2.13; Hb 1.8 e 2Pe 1.1. Um exemplo veterotestamentário do nome Deus aplicado a Cristo encontra-se numa passagem messiância bem conhecida: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte...” – Is 9.6.
b.    A palavra Senhor (kyrios) atribuída a Cristo. Às vezes a palavra Senhor (gr, Kyrios) é empregada simplesmente como tratamos a um superior (Mt 13.27; 21.30; 27.63; Jo 4.11). Às vezes pode simplesmente significar “patrão” de um servo ou escravo (Mt 6.24; 21.40). Ainda assim, a mesma plavra é também empregada como uma tradução do hebraico yhwh, Javé, ou (conforme traduzido com frequência) “o Senhor” ou “Jeová”. A palavra kyrios é empregada para traduzir o nome do Senhor 6841 vezes no Antigo Testamento grego. Assim, qualquer leitor grego da época do Novo Testamento, que conhecesse um pouco o Antigo Testamento grego, reconheceria que, nos contexto apropriados, a palavra “Senhor” era o nome do Criador e Mantenedor do céu e da terra, o Deus onipotente.
Há muitos casos no NT em que “Senhor” é empregado em referência a Cristo e só pode ser compreendido nesse sentido veterotestamentário denso: “o Senhor” que é Javé ou próprio Deus – Lc 2.11; Lc1.43; Mt 3.3 (cf Is40.3); Mt 22.44 (cf Sl 110.1); 1Co8.6; 12.3; Hb 1.10-12 (cf Sl 102); Ap19.16.
c.     Nos escrito de João e Paulo. É impossível negar que tanto João como Paulo ensinam a divindade de Cristo. No Evangelho segundo João acha-se o mais elevado conceito da pessoa de Cristo, como se vé nas seguintes passagens: Jo 1.1-3,14,18; 2.24, 25; 3.16-18,35,36; 4.14,15; 5.18,20-22,25-27; 11.41-44; 20.28; 1Jo 1.3; 2.23; 4.14,15; 5.5,10-13,20. Um conceito semelhante acha-se nas Epístolas Paulinase na Epístola aos Hebreus – Rm 1.7;9.5; 1Co 1.1-3; 2.8; 2Co 5.10; Gl 2.20; 4.4; Fp 2.6; Cl 2.9; 1Tm 3.16; Hb 1.1-3,5,8; 4.14;5.8.
d.    Nos Evangelhos sinóticos. Alguns sustentam que somente os sinóticos nos dão um retrato verdadeiro de Cristo. Eles, segundo dizem, retratam o Jesus humano, o verdadeiro Jesus histórico, em contraste com a descrição idealizada no quarto Evangelho. Mas é mais que evidente que o Cristo dos sinóticos é tão verdadeiramente divino quanto o Cristo de João. Do começo ao fim ele sobressai como uma pessoa supernatural, como o Filho do homem e o Filho de Deus. Seu caráter e suas obras justificam sua reivindicação. Notem-se particularmente as seguintes passagens: Mt 5.17;9.6; 11.1-6,27; 14.33; 16.16,17; 28.18; 25.31-46; Mc 8.38, e outras passagens similares, bem como as passagens paralelas.
e.     Outras fortes alegações da divindade de Cristo. Além dos usos da palavra Deus e Senhor em referência a Cristo, temos outras passagens que defendem com vigor a divindade de Cristo. Jesus disse a seus opositores judeus que Abraão vira o seu dia, e eles o contestaram – Jo 8.57. E, em resposta a contestação deles, ele disse: “ Antes que Abraão fosse, eu sou” Jo8.58, utilizando o que Deus havia dito a Moisés, identificando-se - Ex 3.14. Por isso, os judeus, naquela ocasião, queriam apedrejá-lo – Jo 8.59. Outras passagens, que defendem a divindade de Cristo: Ap 22.13 (em conjunto com Ap 1.8); Jo 1.1, 14; Hb 1.2-3.

2 – Sinais de que Jesus possuía atributos da divindade –

Podemos ver exemplos de atos na vida de Jesus que indicam seu caráter divino. Jesus demonstrou sua onipotência quando acalmou a tempestade no mar com uma palavra (Mt 8.26-27, quando multiplicou os pães e os peixes (Mt 14.19), quando transformou água em vinho (Jo 2.1-11). Alguns podem objetar que esses milagres só mostraram o poder do Espírito Santo agindo por intermédio dele, assim como o Espírito Santo poderia agir por meio de qualquer outro ser humano e, assim, isso não comprova a divindade de Jesus. Mas as explicações contextuais desses eventos muitas vezes destacam não o que demonstram do poder do Espírito Santo, mas o que demonstram do próprio Jesus. Por exemplo, depois que Jesus transformou água em vinho, João nos diz: “Com este, deu Jesus princípios a seus sinais em Caná da Galiléia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele – Jo2.11. O que se manifestou não foi a glória ddo Espírito Santo, mas a glória do próprio Jesus, quando seu poder divino atuou para transformar a água em vinho. De modo semelhante, depois que Jesus acalmou a tempestade no mar da Galiléia, os discípulos não disseram: “Como é grande o poder do Espírito Santo que age por intermédio deste profeta”, mas: “Quem é este que até os ventos e mar lhe obedecem?” – Mt 8.27. Era a autoridade do próprio Jesus a que o vento e as ondas estavam sujeitos, e isso só podia ser a autoridade de Deus que domina sobre os mares e tem poder para acalmar as ondas (cf Sl 65.7;89.9; 107.29).

A onisciência de Jesus é demonstrada no fato de conhecer os pensamentos das pessoas (Mc 2.8), de ver, de muito longe, Natanael sobre a figueira (Jo 1.48), de conhecer “desde o princípio, quais eramos que não criam e quem o havia de trair” (Jo 6.64); Jo 2.25.

O atributo da onipresença de Jesus durante o seu ministério terreno não é afirmado. Entretanto, ao olhar para o futuro, Jesus disse: “...onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles (Mt 18.20); Mt 28.20.

Vê-se que Jesus possuia soberania divina, um tipo de autoridade exclusiva de Deus, no fato de que ele podia perdoar pecados (Mc 2.5-7). Diferente dos profetas do Antigo Testamento que declaravam “Assim diz o Senhor”. ele podia introduzir suas declarações com a frase: “Eu porém , vos digo (Mt 5.22, 28, 32, 34, 39, 44) – uma alegação surpreendente da própria autoridade. Ele podia falar com a autoridade do próprio Deus porque ele mesmo era plenamente Deus. O Pai tinha lhe dado “todas as coisas”, bem como a autoridade para revelar o Pai a quem desejasse (Mt 11.25-27).

Jesus também possuía o atributo divino de imortalidade,  a incapacidade de morrer. Vemos isso indicado no início do evangelho de João, quando Jesus fala aos judeus: “Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei” (Jo 2.19. Isso ficou claro para os discípulos, quando Jesus ressuscitou dos mortos – Jo 2.21-22. Temos também o texto de Jo 10.17-18, relacionado a esta questão. De modo semelhante, as Escrituras dizem, no livro de Hebeus,  que Jesus é sacerdote “constituído não conforme a lei de mandamento carnal, mas segundo o poder de vida indissolúvel” Hb 7.16. O fato de a imortalidade ser uma característica singular exclusiva de Deus é visto em 1Tm 6.16, que fala de Deus como “o único que possui mortalidade”.
Outra confirmação clara da divindade de Cristo é o fato de ele ser considerado digno de culto, algo que não pode ser dito de nenhuma outra criatur, inclusive os anjos (Ap 19.10). As Escrituras dizem de Cristo: “Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus , na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Dus Pai” – Fp 2.9-11. De modo semelhante, Deus ordena que os anjos adorem a Cristo, pois lemos: “E todos os anjos de Deus o adorem” – Hb 1.6.

João, o apóstolo, teve permissão de vislumbrar o culto que ocorre no céu, pelo que vê milhares e milhares de anjos e criaturas celestes em torno do trono de Deus dizendo: “Digno é o Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor” Ap 5.12. Então ele ouve “toda criatura que há no céu e sobre a terra, debaixo da terra e sobre o mar, e todo o que neles há, estava dizendo: Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o dominio pelos séculos dos séculos” Ap 5.13. Cristo é aqui chamado “ o Cordeiro que foi morto”, sendo-lhe concedido o culto universal ofereceido a Deus Pai, demonstrando-se assim claramente sua equivalência em divindade.

3 – A consciência própria de Jeus, de sua divindade.  –

No início do século XX (e final do século XIX) teve início de uma forte tendência de recorrer à consciência própria de Jeus e negar que ele estivesse cônscio de que era o Messias ou Filho de Deus. Naturalmente, não é possível ter qualquer conhecimento da consciência própria de Jesus, a não ser por meio de suas palavras, nos termos em que elas estão registradas nos evangelhos; e será sempre possível negar que elas expressam corretamente o pensamento de Jesus. Para os que aceitam o testemunho dos evangelhos, não pode haver dúvida de que Jesus estava consciente de que era o próprio filho de Deus (desde a sua encarnação, no útero de Maria, por mais estranho que isso se nos pareça). As seguintes passagens atestam a consciêcia de Jesus, quanto a sua natureza divina: Mt 11.27 (Lc10.22); 21.37,38 (Mc12.6; Lc 20.13); 22.41-46 (Mc13.35-37; Lc20.41-44); 24.36 (Mc13.32); 28.19. Algumas destas passagens atestam a consciência messiânica de Jesus; outras, o fato de que ele estava cônscio de que era o Filho de Deus no sentido mais elevado. Em Mateus e Lucas há várias passagens nas quais ele fala da primeira pessoa da Trindade como “meu Pai”, Mt 7.21; 10.32,33; 11.27; 12.50; 15.13; 16.17; 18.10,19,35; 20.23; 25.34; 26.29,53; Lc 2.49; 22.29; 24.49. No Evangelho segundo João a consciência que Jesus tinha de que era o próprio Filho de Deus é ainda mais palpável em passagens como Jo 3.13; 5.17,18,19-27; 6.37-40,57; 8.34-36; 10.17,18,30,35,36, e outras passagens mais.

4 – A “Teoria da Kenosis”  –

As Escrituras nos dizem, em Fp 2.5-7: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumirndo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana...” Baseando-se nesse texto, e em 2Co 8.9 e Jo 17.5, alguns teólogos alemães (à partir de 1860-1880), e ingleses (à partir de 1890-1910), passaram a defender uma idéia de encarnação que jamais fora defendida na história da igreja (até então). Essa nova idéia foi chamada “teoria da kenosis”, sendo que a posição geral representada por ela foi chamada “teologia kenótica”. A teoria da kenosis defende que Cristo abriu mão de alguns atributos divinos enquanto estava sobre a terra como homem. A palavra “kenosis é tomada do verbo grego “kenoõ”, cujo significado gera é “esvaziar”, sendo traduzida por “esvaziou-se em Fp 2.7. Assim, de acordo com essa teoria, Cristo “esvaziou-se” de alguns atributos divinos, tais como a onisciência, onipresença e onipotência, enquanto estava sobre a terra como homem. Isso era visto como uma autolimitaçao voluntária da parte de Cristo, feita para cumprir sua obra de redenção.

Mas, será que Fp 2.7 ensina que Cristo esvaziou-se de alguns de seus atributos divinos? E será que o restante do Novo Testamento confirma isso? A evidência das Escrituras aponta para uma resposta negativa para as duas perguntas. Pode-se refutar as duas perguntas acima, com cinco considerações:

1.     Primeiro precisamos entender que nenhum mestre reconhecido dos primeiros 1800 anos da história da igreja, incluindo os que falavam grego desde o nascimento, pensava que “esvaziou-se” em Fp 2.7 significava que o Filho de Deus abandorara alguns atributos divinos.
2.     Em segundo lugar, precisamos reconhecer que o texto não diz que Cristo “esvaziou-se de alguns poderes” ou “esvaziou-se de atributos divinos” ou algo parecido.
3.     Em terceiro lugar, o texto descreve o que Jesus fez nesse “esvaziamento”: ele não o fez deixando algum de seus atributos, mas, antes, “assumindo a forma de servo”, ou seja, passando a viver como homem, e “tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.8). Assim, o próprio contexto interpreta esse “esvaziar-se” como equivalente de “humilhar-se” e assumir condição e posição inferior. Nesse contexto, o esvaziamento inclui mudança de função e condição, não de atributos essenciais.
O fato Cristo tomar a forma de servo não envolve a desistência de ser a forma de Deus. Não houve permuta de uma pela outra. Embora preexistindo na forma de Deus, Cristo não considerou o estar em igualdade com Deus um prêmio que ele não devia deixar escapar, mas esvaziou-se, tomando a forma de servo. O estar em igualdade com Deus não indica um modo de ser ou de existir, mas um estado que Cristo permutou com outro estado.
4.   Um quarto motivo encontra-se no propósito de Paulo nesse contexto. Seu propósito é convencer os filipenses: “Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a sim mesmo” (Fp 2.3). E ele, Paulo, continua: “Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros” (Fp 2.4). Para convencê-los a ser humildes e a colocar os interessesdos outros em primeiro lugar, ele então levanta o exemplo de Cristo. “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo...” (Fp 2.5-7).
Assim, ao levantar Cristo como exemplo, ele quer que os filipenses imitem Cristo. Mas, com certeza ele não está pedindo que os cristãos filipenses “abandonem” ou “coloquem de lado” algum de seus atributos ou habilidades especiais (seja estas quais forem, e se houvessem)! Antes, ele está pedindo que eles coloquem os interesses dos outros em primeiro lugar: “Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros” (Fp 2.4). E porque esse é o objetivo, pelo contexto é coerente compreender que ele está empregando Cristo como o exemplo supremo de alguém que fez exatamente isso: colocou os interesses dos outros em primeiro lugar e dispôs-se a abrir mão de alguns de seus privilégios e de sua condição como Deus.
Por fim, a melhor compreensão dessa passagem é que ela fala de Jesus deixando a sua condição e o privilégio que possuía no céu: ele “não julgou como usurpação o ser igual a Deus”  (não se apegou as vantagens pessoais), mas “esvaziou-se” ou “humilhou-se” por nós e passou a viver como homem. Jesus fala em outro lugar da “glória” que possuia com o Pai “antes que houvesse mundo” (Jo 17.5), glória que deixou e receberia de volta quando voltasse ao céu. E Paulo, podia falar de Cristo que “sendo rico, se fez pobre” (2Co 8.9)., de novo aludindo ao privilégio e honra que merecia, mas que deixara temporariamente por nós.
5.     O quinto e último motivo pelo qual a “teoria da kenosis” em Fp 2.7 deve ser rejeitada é o contexto mais amplo do ensino do Novo Testamento e o ensino doutrinário de toda as Escrituras. Se fosse verdade que ocorreu um fato tão importante como esse – que o Filho eterno de Deus abandonou, por um momento, todos os atributos de Deus, deixando por um momento, de ser onisciente, onipotente e onipresente, por exemplo, - então seria de esperar que tal fato incrível fosse ensinado repetidas vezes e de forma clara no Novo Testamento, em vez dese encontrar na interpretação muito duvidosa de uma palavra de uma epístola. Mas vemos o oposto disso: não encontramos declarado em nenhum outro lugar que o Filho de Deus deixou de possuir alguns dos atributos de Deus que possuía desde a eternidade. De fato, se a teoria da kenosis fosse verdadeira (e esta é uma objeção fundamental contra ela), já não poderíamos afirmar que Jesus era plenamente Deus enquanto estava aqui na terra. A teoria da kenosis em última análise nega a plena divindade de Cristo e o torna menor que Deus pleno. “Todas as formas de ortodoxia clássica ou rejeitam explicitamente ou rejeitam em princípio a teologia kenótica.” – S. M. Smith.

É importante compreender que o principal motivo que levou as pessoas a aceitar a teoria kenótica não era a descoberta de uma compreensão melhor de Fp 2.7 ou de alguma passagem do Novo Testamento, mas o crescente desconforto que sentiam diante das formulações da doutrina de Cristo na ortodoxia histórica clássica. Parecia por demais incrível para pessoas racionais e “científicas” crer que Jesus Cristo podia ser verdadeiramente humano e plena e absolutamente Deus ao mesmo tempo. A teoria da kenosis passou a ser um jeito cada vez mais aceitável de dizer que (de algum modo) Jesus era Deus, mas um tipo de Deus que havia deixado, por algum tempo, algumas de suas qualidades divinas que as pessoas tinham mais dificuldade em aceitar no mundo moderno.

Outras objeções à doutrina kenótica, são:

a.     A teoria se baseia na concepção panteísta de que Deus e o homem não são absolutamente diferentes, mas que um pode ser transformado no outro. A idéia hegeliana de vir a ser é aplicada a Deus, e se cancela a linha de demaração absoluta.
b.    Ela subverte completamente a doutrina da imutabilidade de Deus, claramente ensinada nas Escrituras, Ml 3.6; Tg 1.17, e também implícita na própria idéia de Deus. O absoluto e o mutável são mutuamente exclusivos; e um Deus mutável certamente não é o Deus das Escrituras.
c.     Essa doutrina significa uma virtual destruição da Trindade e, portanto, elimina o nosso próprio Deus. O Filho humanizado, voluntariamente esvaziado dos seus atributos, não poderia mais ser uma subsistância  na vida trinitária.
d.    Ela supões uma relação muito frouxa entre o modo divino de existência, os atributos divinos e essência divina, quando fala dos primeiros como se pudessem estar muito separados da última. Isso é completamente enganoso e envolve exatamente o erro condenado na doutrina católica romana da transubstanciação.
e.     Não resolve o problema que pretendia solucionar. Seu desejo era garantir a unidade da pessoa e a realidade da humanidade do Senhor. Mas o que, sim, é certo, é que a unidade pessoal não é garantida com a suposição de um Logos coexistente com uma alma humana. Tampouco se sustenta a realidade da humanidade substituindo a alma humana por um Logos esvaziado. O Cristo dos kenóticos não é Deus nem homem. Nas palavras do Dr. Warfield, sua natureza é apenas “uma deidade encolhida”.

5 – A necessidade de que Jesus, o Cristo, fosse plenamente divino –

No plano divino da salvação era absolutamente essencial que o Mediador fosse verdadeiro Deus. Era necessário que:

1.     Ele pudesse apresentar um sacrifício de valor infinito e prestar perfeita obediência à lei de Deus.
2.     Ele pudsse sofrer a ira de Deus redentoramente, isto é, para livrar outros da maldição da lei.
3.     Ele pudesse aplicar os frutos da sua obra consumada aos que o aceitassem pela fé.

O homem, com a sua vida arruinada, não pode nem cumprir a pena do pecado, nem prestar perfeita obediência a Deus. Ele, o homem, pode sofrer a ira de Deus e, exceto pela graça redentora de Deus, terá que sofrê-la eternamente, mas não pode sofrê-la de modo a abrir um caminho de livramenteo, Sl 49.7-10; 130.3.

É crucialmente importante insistir na plena divindade de Cristo, não só porque ela é ensinada de maneira clara nas Escrituras, mas também porque:

Ø  Somente alguém que fosse Deus infinito poderia arcar com toda a pena de todos os pecados de todos os que cressem nele. Qualquer ciratura finita não seria capaz de arcar com tal pena.
Ø  A salvação vem do Senhoir (Jn2.9), e toda a mensagem das Escrituras é moldada para mostrar que nenhum ser humano, nenhuma criatura, jamais conseguiria salvar o homem – só Deus mesmo poderia.
Ø  Só alguém que fosse verdadeiramente e plenamente Deus poderia ser o mediador entre Deus e homem (1Tm 2.5), para levar este último de volta a Deus como também para lhe revelar (ao homem) Deus de maneira mais completa (Jo14.9).

Assim, se Jesus não fosse (não é) plenamente Deus, não temos salvação e, por fim, nenhum cristianismo. Não é por acaso que ao longo da história os grupos que abandonaram a crença na plena divindade de Cristo não tem permanecido muito tempo na fé cristã, desviando-se logo para um tipo de religião alheia ao Cristo que as Escrituras apresentam.

A ENCARNAÇÃO: DIVINDADE HUMANIDADE NA ÚNICA PESSOA DE CRISTO –

O ensino bíblico sobre a plena divindade e plena humanidade de Cristo é tão amplo que se vem crendo em ambos desde os primeiros tempos da história da igreja. Mas um entendimento preciso de como a plena divindade poderiam ser combinadas em uma pessoa só foi formulado gradualmente na igreja e não chegou à forma final antes da Definição de Calcedônia em 451 d.C. Antes disso, algumas concepções inadequadas da pessoa de Cristo foram propostas e depois rejeitadas. Além da concepção ariana, já abordada neste artigo, que sustentava que Jesus não era plenamente divino, há outras três concepções que foram também rejeitadas como heresias que veremos a seguir.
1 – Três concepções inadequadas da pessoa de Cristo –

  1. O apolinarismo.
Apolinário, que se tornou bispo em Laodicéia em cerca de 361 d.C., ensinava que a pessoa única de Cristo possuía um corpo humano, mas não uma mente ou um espírito humano, e que a mente e o espírito de Cristo provinham da natureza divina do Filho de Deus. Mas, suas idéias foram rejeitadas pelos líderes da igreja na sua época. Estes perceberam que não era só o nosso corpo humano que necessitava de salvação e ser representado por Cristo na sua obra redentora, mas também nossa mente e espírito (ou alma) humano: Cristo tinha de ser plena e verdadeiramente humano para nos salvar(Hb 2.17). O apolinarismo foi rejeitado por alguns concílios eclesiásticos desde o Concílio de Alexandria em 362 d.C. até o Concílio de Constantinopla em 381 d.C.

  1. O nestoniarismo.
O nestoniarismo é a doutrina de que havia duas pessoas distintas em Cristo, uma pessoa humana e outra divina, ensino diferente da idéia bíblica que mostra Jesus como uma só pessoa. Nestório era um pregador famoso em Antioquia e, desde 428 d.C., bispo de Constantinopla. Embora o próprio Nestório talvez nunca tivesse ensinado a concepção herética que leva o seu nome, por uma combinação de alguns conflitos pessoasi e boa dose de política eclesiástica, foi afastado de seu ofício, tendo seus ensinos condenados.
É importante compreender porque a igreja não podia aceitar a idéia de que Cristo era duas pessoas distintas. Não temos, em parte alguma das Escrituras, indicação de que a natureza humana de Cristo, por exemplo, seja uma pessoa independente, que decide fazer algo contrário à natureza divina de Cristo. Em parte alguma temos indicação da natureza humana conversando com a natureza divina ou lutando dentro de Cristo, ou algo parecido. Jesus sempre fala “eu”, não “nós”, apesar de referir-se a si próprio e ao Pai como “nós” (Jo 14.23). As Escrituras sempre tratam Jesus por “ele” e não por “eles”. E, ainda que às vezes possamos distinguir ações de sua natureza divina e ações de sua natureza humana, para nos facilitar a compreeesão de algumas declarações e ações registradas nas Escrituras, estas não dizem “a natureza humana de Jesus fez isso” ou “a natureza divina de Jesus fez aquilo”, como se houvesse pessoas distintas, mas sempre fala do que “a pessoa de Cristo fez. Assim, a igreja continuou insistindo que Jesus era uma só pessoa, ainda que possuísse natureza humana e natureza divina.

  1. O monofisismo (eutiquianismo).
Uma terceira concepção inadequada é chamada de monofisismo, a idéia de que Cristo possuía só uma natureza. O primeiro defensor dessa idéia na igreja primitiva foi Êutico (378-454 d.C.), líder de um mosteiro em Constantinopla. Êutico ensinava o erro oposto do nestorianismo, pois negava que as naturezas humana e divina em Cristo permanecessem plenamente humana e plenamente divina. Ele defendia, antes, que a natureza humana de Cristo fora tomada e absorvida pela divina, de modo que ambas as naturezas haviam se modificado um pouco, dando lugara a um terceiro tipo de natureza. Pode-se ver uma analogia do eutiquianismo quando colocamos uma gota de tinta num copo de água: a mistura resultante não é nem tinta pura nem água pura, mas algum tipo de tereceira substância. De modo semelhante, Êutico ensinava que Jesus era uma mistura de elementos divinos e humanos em que ambos foram um tanto modificados para formar uma nova natureza.
O monofisismo também causou grande e justa preocupação na igreja porque, por essa doutrina, Cristo não era nem verdadeiramente Deus nem verdadeiramente homem. E, nesse caso, não podia representar-nos verdadeiramente como homem nem podia ser verdadeiro Deus, capaz de obter a nossa salvação.

2 – A Cristologia de Calcedônia (a Definição de Calcedônia em 451 d.C.) –

As controvérsias sobre a encarnação, sobre divindade e a humanidade na única pessoa de Cristo, foram tratadas pelo Concílio de Calcedônia, e 451 d.C. Para tentar resolver os problemas levantadas por essas controvérsias, convocou-se um amplo concílio eclesiástivo na cidade de Calcedônia, perto de Constantinopla (aual Istambul, na Turquia), realizado de 8 de outubro a 1º de novembro de 451 d.C. A declaração resultante, chamada de Definição de Calcedônia, previne contra o apolinarismo, o nestorianismo e o eutiquianismo. Ela tem sido tomada desde então como a definição padrão, ortodoxa, do ensino bíblico sobre a pessoa de Cristo igualmente pelos ramos católicos, protestantes e ortodoxos do cristianismo.

Segue a declaração, por inteiro:

Fiéis aos Santos Pais, todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, e perfeito quanto à humanidade; verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, constando de alma racional e de corpo, consubstancialcom o Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; em tudo semelhante a nós, excetuando o pecado; gerado segundo a divindade pelo Pai antes de todos os séculos, e nestes últimos dias, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, nascido da Virgem Maria, mãe de Deus; um e só mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis; a distinção de naturezas de modo algum é anulada pela união, antes é preservada a propriedade de cada natureza, concorrendo para formar uma só pessoa e em uma subsistência; não separado nem dividido em duas pessoas, mas um só e o mesmo Filho, o Unigênito, Verbo de Deus, o Senhor Jesus Cristo, conforme os profetas desde o princípio acerca dele testemunharam, e o mesmo Senhor Jesus nos ensinou, e o Credo do Santos nos transmitiu.

Assim, nessa declaração, temos a oposição ao apolinarismo, ao nestorismo e ao monofisismo: Cristo era “verdadeiramente homem” – constando de alma racional e corpo, suas naturezas eram “inseparáveis e indivisíveis” e, constando de duas  naturezas inconfundíveis, imutáveis.

A Definição de Calcedônia nos é de grande ajuda na compreensão correta do ensino bíblico. Ela ensina que Cristo possui indiscutivelmente duas naturezas, uma natureza divina e uma divina. Ela declara que sua natureza divina é exatamente a mesma de seu Pai (“consubstancialmente ao Pai, segundo a divindade”). E sustenta que a natureza humana é exatamente como nossa natureza humana, ainda que sem pecado (“consubstancial a nós, segundo a humanidae, em todas as coisas semelhante nós, excetuando o pecado”. Além disso, ela afirma que na pessoa de Cristo a natureza humana mantém suas características distintas, e a natureza divina mantém suas características distintas (“A distinção de naturezas de modo algum é anulada pela união, antes é preservada a propriedade de cada natureza”). Por fim, afirma que, quer o compreendamos, quer não, essas duas naturezas estão unidas na única pessoa de Cristo.

Quando a Definição de Calcedônia diz que as duas naturezas de Cristo ocorrem juntas em “uma só pessoa e subsistência”, a palavra grega traduzida por “subsistência” é hypostasis, “ser”. Assim, a união das naturezas humana e divina de Cristo em uma pessoa é às vezes chamada de união hipostática. Esse termo simplesmente indica a união das naturezas humana e divina de Cristo em um ser. As consequências dessa união, de duas naturezas em uma pessoa, não serão abordadas neste artigo, pois, demandaria uma abordagem de várias passagens bíblicas e um extensa consideração de cada uma delas.

Procurei, neste artigo, sintetizar alguns pontos essenciais da Pessoa de Cristo, conforme apresentado pelas Escrituras, pontos estes que tem sido desconsiderados no ensino do discipulado na maioria absoluta das igrejas evangélicas. No entanto, não poucos cristãos tem me abordado em busca de conhecimento mais amplo sobre o mistério da encarnação e da Pessoa de Cristo, insatisfeitos com o ensino das Escolas Bíblicas Dominicais (sedentos por conhecer mais da Pessoa de Cristo e do milagre da encarnação).

Sicut scriptum est...

Bibliografias utilizadas na construção deste artigo:

- Teologia Sistemátia (Wayne Gruden – São Paulo, Editora Vida Nova, 2006 – reimpressão)
- Teologia Sistemática (Louis Berkhof – São Paulo, Cultura Cristã, 2007 – 3ª Edição)


(Há, no artigo acima, várias compilações das obras acima, não havendo indicação por aspas ou referências, a elas. Minha intenção é incitar o leitor a pesquisar nessas obras e, assim lê-las.)