sábado, 12 de maio de 2012

CONTRIÇÃO E CONFISSÃO DE PECADOS, NA VISÃO CALVINISTA –


Por Ricardo Castro
Sicut scriptum est... 

O que é necessário para se obter a remissão dos pecados?

Por que meio, de que maneira, por qual condição e com que facilidade ou dificuldade se obtém a remissão dos pecados?

Uma coisa é certa, e absoluta: se a remissão dos pecados dependesse das condições em que os pecadores se acham, ninguém seria mais miserável nem estaria mais desesperado do que nós (pecadores)!
Ora, para se obter o perdão, e graça, é necessária a contrição, e, esta deve ser feita devidamente, o difícil, se concordarmos com essa afirmação, é se obter a certeza de que se está seguro de que realizou a contento a contrição. Como mensurar a extensão do débito, causado pelo pecado, para pagar devidamente? Alguém ousará garantir que empregou todas as suas forças para chorar os seus pecados? Será que há alguém quem não tenha sido levado ao desespero por essa doutrina que exige contrição para se obter a remissão dos pecados? É certo que a remissão dos pecados jamais é outorgada na ausência do arrependimento, mas, igualmente é certo que o arrependimento não é a causa da remissão dos pecados. Em busca da remissão dos seus pecados, o pecador deve por a sua atenção tão somente na misericórdia de Deus. Assim, Calvino diz que devemos reconhecer que há grande diferença entre ensinar a um pecador que ele merecerá a remissão dos seus pecados se fizer plena e completa contrição, e instruí-lo a ter fome e sede da misericórdia de Deus, se reconhecer a sua misericórdia; demonstrar-lhe a sua fadiga, a sua angústia e o seu cativeiro, para levá-lo a buscar consolo, descanso e livramento. Em suma, ensiná-lo a, em sua humildade, dar glória a Deus.

Quanto a confissão, como requisito para a remissão de pecados, temos aqui outro absurdo. A confissão de pecados não apaga pecados. As Escrituras nos ensinam que o é o Senhor que redime, esquece e apago aos nosso pecados, que lhe confessamos para obter graça e perdão. O Senhor é o médico a quem devemos mostrar nossas chagas. Ele é que foi ofendido e ferido: peçamos-lhe misericórdia e paz. Ele conhece o nosso coração e vê todos os nossos pensamentos: abramos o nosso coração perante ele. Ele chama os pecadores: partamos, pois, ao seu encontro. Nos Salmo 32 e 51, Davi nos ensina como agir com nossos pecados e iniquidades (vs 5 e 7, respectivamente). Declarando as nossas fraquezas uns aos outros, nós nos ajudamos mutuamente mediante conselho e consolação, mas, não apagamos os pegados uns dos outros. Enfim, quem apaga as nossas transgressões é Deus, e tão somente Ele – e essa ação não depende de nenhuma ação do pecador.

A boa regra da confissão é: confessar e reconhecer um tão imenso abismo do mal em nós que supera a capacidade dos nossos sentidos. Devemos nos aplicar a expor tudo o que há em nós, todo o nosso coração perante Deus. Mas, não podemos esquecer que muitas vezes não discernimos nossas faltas e que há muitas que nos são ocultas. E, aqui novamente somente Deus pode nos ajudar em nossa total e completa incapacidade de reconhecer nosso real estado corrupto e decadente.

Há muitas, e variadas, doutrinas inventadas pelos homens que distorcem completamente o ensinamento das Escrituras a respeito da contrição e confissão de pecados. Todas essas doutrinas são comparadas a madeira, o feno e a palha, as quais o fogo reduz a nada, e essas doutrinas, que não passam de madeira, feno e palha, são destruídas e dissipadas pelo Espírito de Deus. Dessa forma, o que se conclui é que o Espírito é o fogo pelo qual elas são provadas.

A remissão dos pecados é obra do Redentor, e tão somente d’Ele. Não há nada que podemos fazer para fazê-la mais eficaz. Contrição e confissão de pecados só agradam a Deus porque o nosso Redentor tornou ambas possíveis e agradáveis a Deus.

Sicut scriptum est...

Bibliografia utilizadas na construção deste artigo:
- As Institutas, volume 2 (João Calvino – Editora Cultura Cristã)
(Há, no artigo acima, várias compilações da obra acima, não havendo indicação por aspas ou referências, a todas elas. Minha intenção é incitar o leitor a pesquisar nessa obra e, assim lê-la.)

sábado, 7 de abril de 2012

O ARREPENDIMENTO, NA VISÃO CALVINISTA –


Por Ricardo Castro
Sicut scriptum est... 

Arrepender-se é chorar os pecados cometidos; e não cometer outros após chorar.

Arrepender-se é gemer pelos males praticados; e não cometer outros, que o farão gemer.

Arrepender-se é uma triste vingança pela qual o pecador castiga em si mesmo o que ele gostaria de não ter cometido.

Arrepender-se é uma dor de coração e um amargor de alma pelas maldades que a pessoa cometeu ou nas quais consentiu.

Arrepender-se é lançar mão de um remédio que extingue o pecado, um dom vindo do céu, um poder admirável, uma graça que sobrepuja a força das leis.

As frases acima são um belo exemplo de declarações de quem nunca, jamais, soube o que é fé (conforme as Escrituras), e, muito menos sabe o que é o verdadeiro arrependimento – o arrependimento segundo os ensinamentos escriturístico (segundo as Sagradas Escrituras).

Pela pregação do evangelho o pecador é apresentado à graça e a remissão dos pecados e, ele, sendo libertado da miserável servidão do pecado e da morte, é transferido para o reino de Deus. Ao receber a graça do evangelho pela fé, não há como ele (o pecador) não voltar atrás em sua vida extraviada, tomar o caminho reto e se dedicar com todo seu empenho a refletir no verdadeiro arrependimento. Assim, o arrependimento é parte integrante da sua fé e, também, gerado por esta.

O arrependimento não precede à fé, mas, sim, procede dela. Não obstante, não há, com essa afirmação, a intenção de dizer que haja algum intervalo de tempo no qual ele, o arrependimento, deixe de ser gerado, mas, sim, que o homem não pode aplicar-se retamente ao arrependimento se não reconhecer que pertence a Deus. Calvino afirma que “ninguém pode concluir que pertence a Deus, a não ser que primeiro tenha reconhecido a sua graça”. Isso, segundo ele, joga por terra a ação comum de exigir do candidato ao batismo alguns dias de arrependimento antes de ser recebido à comunhão da graça do evangelho. Ora, bem sabemos que o cristão deve continuar a prática do exercício do arrependimento, e, este exercício se inicia quando ele, o pecador, recebe de Deus a fé.

Só há verdadeiro arrependimento naquele que crê na Boa Nova – no Evangelho. Há, no entanto, duas espécies de arrependimento: o “Arrependimento Legal” e o “Arrependimento Evangélico”. O “Arrependimento Legal”, segundo Calvino, é aquele pelo qual o pecador, angustiado pelo duro castigo imposto ao seu pecado, e como que partido ou quebrantado pelo terror da ira de Deus, permanece preso a essa perturbação, sem poder se desentravar. Já o “Arrependimento Evangélico”, também segundo Calvino, é aquele pelo qual o pecador, estando lamentavelmente ensimesmado e aflito, não obstante levanta-se e eleva-se, abraçando a Jesus Cristo como o remédio para a sua chaga, o consolo para o terro que o bate, o bom porto par o abrigar em sua miséria (não nos esquecendo de que Deus é o originador da fé que conduz o pecador ao arrependimento).

As Escrituras bem descrevem o arrependimento de Caim, Saul e Judas como arrependimento legal: após conhecerem a gravidade do seu pecado eles temeram a ira de Deus, mas, só pensando na vingança e no juízo de Deus, deixaram-se dominar por este pensamento. Da mesma forma as Escrituras bem descrevem o arrependimento daqueles que, depois de feridos pelo aguilhão do pecado, firmados, porém, na confiança da misericórdia de Deus, voltaram-se a ele: Ezequias, Davi, Pedro, Paulo e, muitos outros. Estes, após chorarem amargamente, não perderam a esperança.

Fé e arrependimento não devem ser confundidos – são distintos, mas, unidos. Não é possível separá-los, mas, é possível distingui-los. Segundo Calvino, o verdadeiro arrependimento não subsiste sem a fé. Assim, embora entretecidos por um laço que não se pode desfazer, melhor será uni-los que confundi-los. O arrependimento abrange a conversão completa, da qual a fé uma das partes componentes.

“A palavra hebraica para significar arrependimento quer dizer conversão; a dos gregos significa mudança de conselho ou propósito e de vontade e, de fato, a realidade não corresponde mal a esses vocábulos. Sim, pois, em suma, arrependimento significa que nos retiramos de nós mesmos e nos convertemos a Deus, e, tendo abandonado a nossa primeira forma de pensar e de querer, assumimos uma nova. Por isso, em minha opinião, podemos defini-los apropriadamente desta maneira.” – Calvino

Devemos saber, e bem saber, que o arrependimento é uma verdadeira conversão da nossa vida - conversão essa para servir a Deus e também para seguir o caminho por ele indicado. Assim, o arrependimento procede de um legítimo temor de Deus, não fingido, e consiste na mortificação da nossa carne e do nosso velho homem, e na vivificação do Espirito. Como conversão de vida entendemos uma mudança, não somente nas obras externas, mas também na alma, de modo que, tendo sido despojado da sua velha natureza, o pecador arrependido passe a produzir frutos dignos da sua renovação. Quanto ao proceder de um legítimo temor de Deus, entendemos que, antes de ser induzido ao arrependimento, é necessário que a consciência seja, primeiro, tocada pelo juízo de Deus. E, quanto à mortificação da carne e a vivificação do Espírito, entendemos que o pecador deve renunciar a si mesmo e abandonar a sua natureza e, que, para isso, é necessária a ação do Espírito de Deus, transformando as almas pecadoras em sua santidade, dirigindo-as de tal modo a novos pensamentos e afetos que se pode dizer que não são as mesmas de antes.

“O arrependimento é uma regeneração espiritual cujo objetivo é que a imagem de Deus, obscurecida e quase apagada em nós, pela transgressão de Adão, seja restaurada.” - Calvino

Sicut scriptum est...
Bibliografia utilizadas na construção deste artigo:
- As Institutas, volume 2 (João Calvino – Editora Cultura Cristã)
(Há, no artigo acima, várias compilações da obra acima, não havendo indicação por aspas ou referências, a todas elas. Minha intenção é incitar o leitor a pesquisar nessa obra e, assim lê-la.)

- Referências bíblicas): Mt 3.2,3; Is 40.3; Gn 4.8-16; 1Sm 15; Mt 27. 3-5; 2Rs 20.1-11; Is 37; Jn 3; 2Sm 24.10,25; 12.13; At 2.37; Lc 22.62, At 20.21; 10.42; Ez 18; Jr 4.1; Is 58; Jr 44; At 17.30,31; 2Co 7.9,10; Sl 34.14; Is 1.16,17; Rm 8.5-8.