Por Ricardo Castro
Sicut scriptum est...
O que é necessário para se
obter a remissão dos pecados?
Por que meio, de que
maneira, por qual condição e com que facilidade ou dificuldade se obtém a remissão
dos pecados?
Uma coisa é certa, e
absoluta: se a remissão dos pecados dependesse das condições em que os
pecadores se acham, ninguém seria mais miserável nem estaria mais desesperado
do que nós (pecadores)!
Ora, para se obter o perdão,
e graça, é necessária a contrição, e, esta deve ser feita devidamente, o
difícil, se concordarmos com essa afirmação, é se obter a certeza de que se
está seguro de que realizou a contento a contrição. Como mensurar a extensão do
débito, causado pelo pecado, para pagar devidamente? Alguém ousará garantir que
empregou todas as suas forças para chorar os seus pecados? Será que há alguém
quem não tenha sido levado ao desespero por essa doutrina que exige contrição
para se obter a remissão dos pecados? É certo que a remissão dos pecados jamais
é outorgada na ausência do arrependimento, mas, igualmente é certo que o
arrependimento não é a causa da remissão dos pecados. Em busca da remissão dos
seus pecados, o pecador deve por a sua atenção tão somente na misericórdia de
Deus. Assim, Calvino diz que devemos reconhecer que há grande diferença entre
ensinar a um pecador que ele merecerá a remissão dos seus pecados se fizer
plena e completa contrição, e instruí-lo a ter fome e sede da misericórdia de
Deus, se reconhecer a sua misericórdia; demonstrar-lhe a sua fadiga, a sua
angústia e o seu cativeiro, para levá-lo a buscar consolo, descanso e
livramento. Em suma, ensiná-lo a, em sua humildade, dar glória a Deus.
Quanto a confissão, como
requisito para a remissão de pecados, temos aqui outro absurdo. A confissão de
pecados não apaga pecados. As Escrituras nos ensinam que o é o Senhor que
redime, esquece e apago aos nosso pecados, que lhe confessamos para obter graça
e perdão. O Senhor é o médico a quem devemos mostrar nossas chagas. Ele é que
foi ofendido e ferido: peçamos-lhe misericórdia e paz. Ele conhece o nosso
coração e vê todos os nossos pensamentos: abramos o nosso coração perante ele. Ele
chama os pecadores: partamos, pois, ao seu encontro. Nos Salmo 32 e 51, Davi
nos ensina como agir com nossos pecados e iniquidades (vs 5 e 7,
respectivamente). Declarando as nossas fraquezas uns aos outros, nós nos
ajudamos mutuamente mediante conselho e consolação, mas, não apagamos os
pegados uns dos outros. Enfim, quem apaga as nossas transgressões é Deus, e tão
somente Ele – e essa ação não depende de nenhuma ação do pecador.
A boa regra da confissão é:
confessar e reconhecer um tão imenso abismo do mal em nós que supera a
capacidade dos nossos sentidos. Devemos nos aplicar a expor tudo o que há em
nós, todo o nosso coração perante Deus. Mas, não podemos esquecer que muitas
vezes não discernimos nossas faltas e que há muitas que nos são ocultas. E,
aqui novamente somente Deus pode nos ajudar em nossa total e completa
incapacidade de reconhecer nosso real estado corrupto e decadente.
Há muitas, e variadas,
doutrinas inventadas pelos homens que distorcem completamente o ensinamento das
Escrituras a respeito da contrição e confissão de pecados. Todas essas
doutrinas são comparadas a madeira, o feno e a palha, as quais o fogo reduz a
nada, e essas doutrinas, que não passam de madeira, feno e palha, são
destruídas e dissipadas pelo Espírito de Deus. Dessa forma, o que se conclui é
que o Espírito é o fogo pelo qual elas são provadas.
A remissão dos pecados é
obra do Redentor, e tão somente d’Ele. Não há nada que podemos fazer para
fazê-la mais eficaz. Contrição e confissão de pecados só agradam a Deus porque
o nosso Redentor tornou ambas possíveis e agradáveis a Deus.
Sicut
scriptum est...
Bibliografia utilizadas na
construção deste artigo:
- As Institutas, volume 2
(João Calvino – Editora Cultura Cristã)
(Há, no artigo acima, várias
compilações da obra acima, não havendo indicação por aspas ou referências, a
todas elas. Minha intenção é incitar o leitor a pesquisar nessa obra e, assim
lê-la.)